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O
Culto do Evangelho no Lar
artigo publicado na
revista “Reformador”, Ed. FEB
JAQUELINE
S. LEAL
FONSECA
“Orar
em família é ver derramar-se sobre ela o cálice aurífico dos céus,
acondicionando-nos nesse imenso bojo de ventura que o Cristo traz a
visitar-nos.” – Tereza de Brito (1)
Conta-nos o Espírito Neio Lúcio (2), pela
psicografia de Francisco C. Xavier, que Jesus, quando se asilava
provisoriamente na casa de Simão Pedro, percebendo que o teor das
conversações já descambava para a improdutividade, tomou das Sagradas
Escrituras e, após colocações simples, por meio das quais trouxe à realidade
daqueles Espíritos a importância do instituto doméstico, desenrolou os
Escritos Divinos e convidou os familiares de Simão à palestra edificante e à
meditação.
Iniciava-se o
primeiro culto cristão no lar.
Mas, o que é
o Culto do Evangelho no Lar?
Segundo André Luiz, na obra
Desobsessão (3),
trata--se de “estudo da Doutrina
Espírita, à luz do Evangelho do Cristo e sob a cobertura moral da oração”.
O Culto do Evangelho no Lar (CEL) é o
momento semanal em que, beneficiando-nos da companhia dos nossos familiares
que comungam dos mesmos princípios religiosos que nós, podemos elevar o
nosso pensamento ao Mais Alto através da prece reconfortante e do estudo e
debate de problemas corriqueiros, do âmbito familiar ou social, à luz do
Evangelho de Jesus decodificado pelo Espiritismo. É
“a festiva
oportunidade de conviver algumas horas com os Espíritos de Luz que virão
ajudar-te nas provações purificadoras, em nome daquele que é o Benfeitor
vigilante e Amigo de todos nós ”. (4)
Bom, mas para
que serve o CEL?
André Luiz, no livro
Conduta Espírita (5),
diz que
“quem cultiva o Evangelho em casa, faz da própria casa um templo do Cristo.”
Em primeiro lugar, podemos colocar o que os
Espíritos nos dizem com relação às bênçãos familiares que podem ser
recolhidas desta prática cultivada em várias religiões, que é a da leitura e
interpretação dos textos do Evangelho.
Os momentos de culto são dedicados
exclusivamente ao reduto doméstico. Portanto, ali os seus componentes estão
à vontade para discutir suas dores e seus problemas, as dificuldades vividas
no dia-a-dia e interpretá-las à luz da Doutrina Espírita. É um momento de
intimidade, de troca de boas vibrações e de bons sentimentos, é um momento
em que a Espiritualidade Amiga se destaca para acompanhar aqueles Espíritos
que estão em luta juntos, na romagem carnal, a fim de que eles possam
recolher os melhores benefícios daqueles minutos.
Orando juntos, segundo a nossa querida
Tereza de Brito, no livro
Vereda Familiar (6), nós nos
utilizamos “das formidáveis
bênçãos que movimentamos para o equilíbrio e para a presença da luz em nosso
cenário doméstico”. Então, podemos concluir que o CEL contribui
para a manutenção do equilíbrio e da paz doméstica.
Joanna de Ângelis, no livro
Florações Evangélicas
(7), coloca que, mesmo num ambiente
familiar conturbado, em que existe a evidente reunião de Espíritos não
afinados, quando se institui a presença de Jesus naquele lar, esta “(...)
produz
sinais evidentes de paz, e aqueles que antes experimentavam repulsa pelo
ajuntamento doméstico descobrem sintomas de identificação, necessidade de
auxílio mútuo.”
Durante o CEL, a família restaura suas forças
despendidas ao longo da semana, enquanto eleva o padrão vibratório da casa,
unificando os laços familiares por terem a oportunidade de partilhar
conhecimentos e dores.
E no Âmbito
Espiritual, qual a repercussão do CEL?
André Luiz, no livro
Os Mensageiros (8),
cap. 37, conta-nos que, após presenciar o CEL de D. Isabel, uma devotada
companheira de Nosso Lar que ainda estava encarnada, cuidando de três
filhos, e cujo marido a amparava e guardava o seu lar do Plano Espiritual,
foi para o jardim de sua casa e observou curiosa cena. Ameaçava tempestade
e, naquele momento, entidades de aspecto desagradável, algumas com formas
até um tanto quanto aterradoras, arrastavam-se para sua direção, mas quando
se aproximavam, recuavam, amedrontadas. Intrigado, perguntou ao seu Mentor,
Aniceto, a razão daquela fuga repentina, como se tivessem aquelas entidades
se encontrado com algo aterrorizante.
Aniceto, com toda a sua paciência e amor,
disse a André Luiz que aqueles irmãos eram os “seres vagabundos da sombra”,
que procuravam asilo nos dias de tormenta, porque ainda muito ligados às
sensações grosseiras da carne, e por isso, os aguaceiros os incomodavam
tanto quanto a nós encarnados. Disse que eles buscavam preferencialmente as
casas de diversão noturna, sendo que as residências abertas também eram por
eles penetradas, porque as viam como que da mesma matéria que lhes
constituía o perispírito.
Aumentando, ainda, os conhecimentos de André
Luiz, complementou Aniceto:
“Toda vez que se ora num lar, prepara-se a melhoria do ambiente doméstico.
Cada prece do coração constitui emissão eletromagnética
de relativo poder. Por isso mesmo, o
culto familiar do Evangelho não é tão-só um curso de iluminação interior,
mas também processo avançado de defesa exterior, pelas claridades
espirituais que acende em torno. O homem que ora traz consigo inalienável
couraça. O lar que cultiva a prece transforma-se em fortaleza,
compreenderam? As entidades da sombra experimentam choques de vulto, em
contato com as vibrações luminosas deste santuário doméstico, e é por isso
que se mantêm a distância, procurando outros rumos...” (Destaque
nosso.)
Joanna de Ângelis diz, em seu livro
Messe de
Amor (9), página “Jesus Contigo”, que nós
distendemos da nossa casa a luz do Evangelho para o “mundo atormentado”. E
diz, ainda mais, que a casa que ora beneficia a rua inteira, e que num
prédio, um único apartamento em que haja CEL é capaz de iluminar todo o
edifício.
Portanto, para que resguardemos o nosso lar
dos Espíritos salteadores e vagabundos das Trevas, formando barreiras
vibratórias capazes de os isolar, e para que possamos distender aos nossos
irmãos que sofrem os benefícios que colhemos com a prece, mantenhamos o
Culto do Evangelho.
E como
podemos fazê-lo?
Joanna de Ângelis, na mesma página
(10), fala-nos:
“Prepara a mesa, coloca água pura, abre o Evangelho, distende
a mensagem da fé, enlaça a família e ora.”
Todavia, indispensável que tomemos das
palavras de Jesus como base para os comentários principais da noite.
André Luiz, no livro
Os Mensageiros (11),
cap. 35, conta--nos o que assistiu no Culto do Evangelho em casa de D.
Isabel.
Disse o nosso Benfeitor Amigo que,
primeiramente, a filha mais jovem proferiu a prece, ao que se seguiu que a
filha mais velha leu uma página instrutiva consoladora e, logo após, uma
nota triste do noticiário comum. Quando a leitura acabou, D. Isabel abriu o
Novo Testamento, como se estivesse procedendo ao acaso, mas, em verdade,
André Luiz viu que o marido de Isabel, do Plano Espiritual, intervinha
diretamente na abertura do Livro Sagrado, ajudando a focalizar o assunto da
noite.
E D. Isabel leu um versículo do Evangelho e o
comentou, com o amparo de um Benfeitor Espiritual que a inspirava, fazendo
alusão ao que a filha mais velha lera como página inicial e ao episódio
triste do jornal leigo.
No livro
Renúncia (12),
romance mediúnico ditado por Emmanuel ao nosso querido Chico Xavier, Alcíone,
protagonista da citada obra, em Culto do Evangelho na casa de seu pai,
contara que quando vivia sob tutela do Padre Damiano e de sua mãe, na
Espanha, “nunca nos reunimos no
culto doméstico sem suplicar o socorro da inspiração divina” e que liam
“apenas um versículo de cada vez e esse mesmo, não raro, fornecia cabedal de
exame e iluminação para outras noites de estudo.” Dá agora para
perceber por que Emmanuel escreveu quatro livros* comentando apenas um
versículo de cada vez, em cada leitura edificante que fazemos...
Podemos, assim, concluir que, ao
colocarmo-nos confortavelmente em torno da mesa com copos de água pura, a
fim de que seja devidamente fluidificada, podemos proferir uma prece
simples, e proceder à leitura de página edificante, de um recorte de jornal
ou alguma reportagem de revista, além do versículo do Novo Testamento para
que possamos, através dele, elucidar o que lemos previamente.
Contudo, podemos utilizar-nos dos recursos
literários disponíveis na Doutrina Espírita, quais sejam: livros cujas
páginas ou mensagens são lidas antes da prece inicial; leitura e comentários
de O Evangelho segundo o
Espiritismo ou do Novo Testamento; livros infantis que poderão
ser utilizados por aqueles que têm filhos pequenos, dando-lhes, assim, o
ensejo de participação ativa no CEL, lendo eles próprios alguma passagem de
um livro infantil edificante, que conte alguma história do seu dia-a-dia na
escola e que tenha a ver com o tema da noite, além do contato com o
conhecimento espírita e a moral cristã contida no Evangelho de Jesus.
Ao final, que seja proferida a prece de
agradecimento.
E não podemos esquecer de fixar um
horário e um dia da semana específicos para o mister, o qual não deverá ser
burlado nem relegado ao esquecimento. Joanna de Ângelis, na já citada página
do livro
Messe de Amor (13), é clara ao nos
informar:
“Não demandes a rua, nessa noite, senão para os inevitáveis deveres que não
possas adiar.
Demora-te no Lar para que o Divino Hóspede aí também se possa demorar.”
(Destaque nosso.)
É importante frisar que o CEL
não é um momento para
manifestações mediúnicas, salvo em situações extremas, em que se faça
necessário a um Mentor Espiritual dar algum recado mais importante. Apesar
de o CEL beneficiar alguns companheiros desencarnados que, porventura,
estejam em nossa casa ou sejam trazidos até ela para se beneficiarem dos
ensinamentos da noite, como exemplifica André Luiz no livro
Entre a Terra e o
Céu14, é muito importante que nos
abstenhamos de dar passividade a Espíritos sofredores no âmbito doméstico,
por ser medida de resguardo do lar, que não possui os aparatos devidos para
as medidas de socorro necessárias a esses irmãos. Que os nossos companheiros
desencarnados em sofrimento se manifestem na reunião mediúnica do Centro
Espírita, que é a sua clínica de psicoterapia em grupo, sob a égide dos
ensinamentos de Jesus.
Mas, e se só
eu em casa sou espírita? Então não há CEL na minha casa?
Tereza de Brito, por intermédio de José
Raul Teixeira, no livro
Vereda Familiar (15), fala
que “caso os seus familiares não
concordem, por serem adultos e pensarem de maneira diferente, não se iniba.
Ore e vibre com Jesus você sozinho, seja nos seus aposentos de dormir ou em
alguma parte da casa onde você possa recolher-se por alguns momentos.”
E se nos lembrarmos de que Joanna de Ângelis disse que podemos
beneficiar um prédio inteiro, uma rua toda, o que não faremos àqueles que
não participam do CEL mas vivem sob o mesmo teto que nós!
“Se os teus se
negarem compartir o ministério a que te propões, a sós, reservadamente na
limitação de tua peça de dormir, instala a primeira lâmpada do estudo
evangélico e porfia...” 16
Em contrapartida, diz que não devemos assim
proceder quando temos filhos sob nossa tutela:
“Se, todavia, os teus filhos
estiverem, ainda, sob a tua tutela, não creias na validade do conceito de
deixá-los ir, sem religião, sem Deus... Como lhes dás agasalho e pão,
medicamento e instrução, vestuário e moedas, oferta-lhes, igualmente, o
alimento espiritual (...)”.
Nós somos responsáveis pelos nossos tutelados
e responderemos se, por acaso, eles falharem por omissão nossa. É nosso
dever levar a eles uma educação moral com base na Lei Natural, que é a Lei
de Deus, contida no Evangelho de Amor que o Cristo nos legou. Portanto, eles
têm que participar do CEL, preferencialmente desde bem pequenos, quando já
comecem a ensaiar o entendimento das coisas, para que se habituem à rotina
semanal e para que incorporem tal hábito, levando-o,
a posteriori, ao íntimo
de seus futuros lares.
E afinal, é
importante mesmo que o espírita faça o CEL todas as semanas, ou basta só
freqüentar o Centro e ler os livros doutrinários?
Por vezes, o espírita desavisado, em especial
quando pouco estuda as obras da Codificação e complementares, acha que, para
que seu lar esteja devidamente protegido dos ataques dos Espíritos levianos
e zombeteiros, basta que esteja cumprindo sua “escala” semanal no Centro
Espírita e que, antes de dormir, faça a sua prece.
Entretanto, é importante,
imprescindível mesmo, que todo espírita faça o CEL, independentemente do
número de vezes que compareça ao Centro Espírita, porque a sua prática
significa a proteção que o lar necessita contra as investidas das trevas. É
mediante o CEL que o nosso lar adquire aquelas barreiras magnéticas
mencionadas por André Luiz no cap. 37 de
Os Mensageiros 17,
citadas anteriormente. É através do CEL que colhemos os benefícios de
apaziguamento das animosidades no lar, o aumento da cordialidade entre os
que vivem sob o mesmo teto, a força necessária para resolver os problemas
familiares de difícil solução, o estreitamento dos laços de consangüinidade.
Vale ressaltar que, independentemente do
número de membros da família que ora unida, o importante, e que realmente dá
valia às potencialidades magnéticas e vibratórias do Culto do Evangelho no
Lar, é a boa intenção na sua prática, é a verdadeira ligação com os Mentores
Espirituais, é a freqüência na sua realização e a mudança de atitude dentro
de casa, que muito contribuirão para que se mantenha o clima de paz e
harmonia que se segue aos minutos de leitura do Evangelho.
Instituamos o Culto do Evangelho em nossos
lares, cuidando de nossos filhos para que lhes seja dado o devido
encaminhamento religioso, o “pão da vida” de que Jesus nos falou, aquele que
realmente nos sacia a fome de luz. E levemos aos irmãos que ainda não o
cultivam a informação dos benefícios que ele proporciona, ensinando-os,
ajudando-os nos dois ou três primeiros cultos, para que, assim, mais
famílias possam recolher as luzes que nós já começamos a receber.
Referências
Bibliográficas:
1 TEIXEIRA, José
Raul.
Vereda Familiar. Pelo Espírito Tereza de
Brito. 3. ed. Niterói: Ed. Fráter, 1995. 134 p., cap. 25, p. 99.
2 XAVIER,
Francisco Cândido.
Jesus no Lar. Pelo Espírito
Neio Lúcio. 22. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1997. 213 p., cap. 1.
3 _______.
Desobsessão.
Pelo Espírito André Luiz. 15. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995. 248 p., cap.
70, p. 239.
4 FRANCO, Divaldo
Pereira. S.O.S.
Família. Pelo Espírito
Joanna de Ângelis. 8. ed. Salvador: LEAL, 1998. 158 p., cap.
Estudo Evangélico no
Lar, p. 63.
5 XAVIER,
Francisco Cândido.
Conduta Espírita. Pelo
Espírito André Luiz. 19. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1996. 155 p., cap. 5, p.
33.
6
Op. cit.,
cap. 25, p. 99.
7 FRANCO, Divaldo
Pereira.
Florações Evangélicas. Pelo Espírito Joanna
de Ângelis. 3. ed. Salvador: LEAL, 1987. 192 p., cap. 3, p. 20.
8 XAVIER,
Francisco Cândido.
Os Mensageiros. 37. ed. Rio
de Janeiro: FEB, 2001. 268 p., cap. 37.
9 FRANCO, Divaldo
Pereira.
Messe de Amor. Pelo Espírito Joanna de
Ângelis. 6. ed. Salvador: LEAL, 1993. 166 p., p. 162, cap. 59.
10
Idem, ibidem.
11 XAVIER,
Francisco Cândido.
Os Mensageiros, 37. ed. Rio
de Janeiro: FEB, 2001, cap. 35.
12 ________.
Renúncia.
Pelo Espírito Emmanuel. 23. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1994. 464p., 2a parte,
cap. III, p. 333.
13 FRANCO, Divaldo
Pereira.
Messe de Amor, cap. 59, p. 163.
14 XAVIER,
Francisco Cândido.
Entre a Terra e o Céu, 19. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2001, cap. VI, p. 37.
15 Teixeira, José
Raul.
Vereda Familiar, cap. 24, p. 96.
16 Op. cit.. cap.
Estudo
Evangélico, p. 62.
17 XAVIER,
Francisco Cândido.
Os Mensageiros, 37. ed. Rio
de Janeiro: FEB, 2001, cap. 37. |